AMOR À VIDA

BIOFILIA: A RECONEXÃO COM O VIVO NA ARQUITETURA E DECORAÇÃO

COMO APLICAR ESSE CONCEITO EM SEUS AMBIENTES PESSOAIS E PROFISSIONAIS.


Gabriela Hunnicutt | Aug 25, 2019

Um livro escrito por Edward Osborne Wilson, em 1984, com o título Biofilia, descreve o termo como uma tendência do ser humano a voltar as suas atenções para as ‘coisas’ vivas. Literalmente, biofilia que dizer amor (philia) à vida (bio), mas, como elemento vivo, podemos considerar que também seja um amor à natureza; ao verde. Em 1994, Edward publicou um segundo livro, dessa vez em parceria com Stephen Kellert, intitulado “A hipótese da biofilia”, que discute a possibilidade de haver base genética para nosso apreço pela natureza.

Yoshifumi Miyazaki, codiretor do Centro para Meio Ambiente e Saúde da Universidade de Chiba, no Japão, uma das instituições mais ligadas ao tema no mundo, afirma que o corpo humano foi feito para se adaptar à natureza, e parques, jardins e flores têm efeitos benéficos em seu bem-estar. De acordo com uma matéria publicada no jornal O Globo, em 2013, “seu trabalho tem como base a premissa de que passamos 99,99% de nossos cinco milhões de anos de evolução como primatas em meio à natureza. Seríamos essencialmente conectados a ela”. Pode parecer esotérico, mas cientistas de diversos países — como Holanda, Reino Unido e Japão — perceberam que, ao entrar em contato com o verde, o corpo logo responde, de forma sutil, com pressão mais baixa e maiores níveis de glóbulos brancos (responsáveis pelas defesas do organismo), entre outros.

Não há um consenso da ciência e dos estudiosos se o ‘apego’ à natureza vêm da genética ou se é cultural. Pesquisas feitas em hospitais mostraram, inclusive, vários fatos bem interessantes. Entre eles, de que mesmo plantas artificiais ou paisagens virtuais exibidas em telões, exercem uma influência sobre os pacientes parecida com a de estar de fato inserido na natureza real. O que nos faz pensar que o efeito de ser meramente ‘transportado’ para a natureza, mesmo que não se tenha contato integral com ela, já causa um efeito positivo nas pessoas. 

Ok, mas como isso se reflete na realidade da vida urbana? Arquitetos e designers de interiores, diante desses estudos e práticas, passaram a considerar a presença do verde de forma bem mais predominante nos projetos de residências e escritórios. Prova disso é que em 2018, o tema da Casa Cor, em São Paulo, foi “Casa Viva”, propondo que a natureza seja um elemento essencial nos projetos.

De acordo com o arquiteto Otto Felix, do Studio Otto Felix, não há muitos artigos falando sobre biofilia de forma específica mas, de acordo com a semiótica, o verde é totalmente necessário em qualquer ambiente. “Quando isso não acontece, o seu olho fica sempre procurando por isso; é algo realmente desconfortável. O verde é como se fosse um ponto seguro”. Segundo ele, tudo o que remeta o homem à sua origem - e isso significa tudo o que vem da terra, não apenas as plantas, é benéfico. “Tudo anda muito corrido, muito atrapalhado, então, todo o ambiente que promova essa conexão, traz benefícios”.

Nos escritórios, ficou comprovado que ambientes cheios de verde tornam as pessoas mais felizes e produtivas. Segundo Otto, é claro que as plantas têm o seu papel mas não dá para dizer que elas, por si só, têm esse poder. O que é comprovado através de uma pesquisa realizada há alguns anos pela Gensler, maior escritório de arquitetura do mundo, quando comparou as empresas mais produtivas com as demais empresas, é que as primeiras oferecem ambientes de interação entre as pessoas e de relaxamento e, com isso, a produtividade pode ser aumentada. E, é claro, as plantas estão inseridas nesse contexto.

Você precisa de um arquiteto para pensar isso na sua casa ou escritório? Não. Inspirado em todo esse contexto, podemos nos propor a criar novos espaços para nós, nossa família e nossos colegas. 

Passo 1. Não tenha medo.

Sim, as jungles (ou florestas) estão na moda. Não tenha medo de errar, ou melhor, de exagerar. No caso de plantas, mais nunca é demais. Escolha um canto para encher de vasos e transformar na sua floresta particular ou espalhe-as pela casa para que o sentimento de proximidade com a natureza esteja em todos os cômodos.

Passo 2. Escolha as plantas certas para o tipo de ambiente

Peça ajuda na hora de comprar. Plantas que precisam de sol reagem diferente das que ficam muito bem (e obrigado) dentro de apartamentos com luz restrita. Isso é fundamental para a escolha das espécies que vão compor a sua área verde.

Passo 3. Cuide delas como se fossem da família

Algumas precisam ser regadas diariamente, outras preferem o ambiente mais desértico – e, nesse caso, você precisará regá-las uma vez por semana, e olhe lá. Descubra mais sobre a sua nova melhor amiga e cuide dele como se fosse da família.

Passo 4. Experimente 

Algumas plantas reagem muito bem quando colocadas na água. As espadas de São Jorge e as jiboias, por exemplo, basta cortar um galho ou ‘espada’ e colocar na água. Em pouco tempo, elas vão começar a criar lindas raízes e mudas. Se o vaso for de vidro, o efeito é maravilhoso. 

Como curiosidade, para Otto Felix, hoje os projetos precisam levar em conta alguns pontos que antes não eram relevantes como a quantidade de lixos (pelo menos 3 para a reciclagem), espaço para uma composteira e ainda, mais espaço para potes de vidro nos armários (partindo do princípio que as pessoas levem seus vidros para comprar a granel em vez de comprar os produtos em embalagens plásticas). Na vida pessoal do arquiteto, tudo isso é muito familiar. Ele mesmo, em sua casa, pratica a biofilia. Ele e sua esposa cultivam plantas e ervas que são utilizadas tanto para cozinhar como para preparar seus próprios cosméticos. E uma curiosidade a mais: ele nos conta que a bruxaria está na moda. Isso mesmo. Muitas pessoas estão adotando o hábito de queimar ervas em determinada hora do dia em busca da reconexão com a natureza. Será?