Crianças Veg

VEGETARIANISMO PARA CRIANÇAS. É SAUDÁVEL, SIM.

ELAS NÃO QUEREM MAIS SABER DE CARNE


Renata Losso | Aug 20, 2018

Aos 7 anos de idade, Eduardo disse aos pais que não ia mais comer carne.

“Foi quando ele descobriu que carne era animal morto”, comenta a mãe e empresária Mônica Gonçalves Canella, de 45 anos. Hoje, aos 9 anos, o menino continua firme e forte na escolha. A decisão, segundo ele, foi tomada por uma única e simples razão: pena dos animais. Com isso, o hambúrguer feito com alimentos como cenoura e feijão entraram para a lista dos pratos preferidos dele e os pais, mesmo não compartilhando os mesmos princípios, também acabaram diminuindo o consumo de carne em casa.

A cena pode parecer peculiar para alguns, mas o aumento do número de vegetarianos estritos e ovolactovegetarianos no mundo parece também estar incluindo as crianças.

Seja por escolha própria ou por preferência dos próprios pais, cada vez mais crianças têm recebido uma alimentação totalmente ou parcialmente isenta de produtos de origem animal.

Alice, de um ano e nove meses, está dentro do primeiro caso. A mãe e publicitária Raquel Abrão, de 34 anos, vem se adaptando ao veganismo – que inclui não só as escolhas alimentares, mas também vestuários, cosméticos, entre outros produtos sem nada de origem animal – desde o início da gravidez da filha. Desde então ela pretende educar os filhos dentro desses princípios – e com o máximo de transparência.

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Para Raquel, a filha entende os princípios de uma alimentação livre de produtos de origem animal com muita facilidade. Por exemplo: “Ela me pergunta o que é quando vê algum salgado e eu explico que aquilo tem leite que é do bezerro. Ela simplesmente entende e não me pede. Acho extremamente natural ela entender que o leite da vaca é do bezerro e o leite da mãe dela, é dela”. Ela ainda comenta que, atualmente, Alice come grão-de-bico como se fosse chocolate e ama batata. De qualquer maneira, a mãe tenta não enviesar a criança para que ela possa fazer as próprias escolhas no futuro, quando estiver mais madura e tiver maior entendimento do assunto. “Se ela decidir ir contra o que acreditamos, ela vai poder tomar a decisão dela”, comenta.

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O que dizem os especialistas

Segundo a Associação Dietética Americana (ADA) e a Academia Americana de Pediatria (AAP), dietas vegetarianas apropriadamente planejadas são: “saudáveis, nutricionalmente adequadas e podem prover benefícios à saúde, sendo apropriadas para todos os estágios da vida, como gestação, amamentação, infância, adolescência e idosos”. As informações foram obtidas através da especialista Monica Moretzsohn, do Departamento de Nutrologia da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), com a colaboração da endocrinologista Laura Ohana, também associada da SBP.

Portanto, desde a introdução alimentar, proteína animal, ovos e laticínios não precisam necessariamente estar presentes na alimentação infantil. Independentemente da condição alimentar, a SBP preconiza a suplementação de ferro e vitamina D até os dois anos de idade para qualquer criança, além de um adequado acompanhamento pediátrico. No entanto, tanto segundo as especialistas como com o nutricionista George Guimarães, especialista em dietas vegetarianas e também ativista pelos direitos animais com a ONG VEDDAS, há uma indicação especial para crianças vegetarianas: a vitamina B12 deve ser suplementada.

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Vitamina B12

Como essa vitamina não é encontrada em alimentos de origem vegetal, todos os vegetarianos – sejam crianças ou adultos – precisam de suplementação. Entretanto, Guimarães esclarece que, enquanto o bebê ainda estiver sendo amamentado, o leite materno pode ser uma fonte de vitamina B12. Isso, claro, sempre que a mãe estiver recebendo suplementação ou no caso de ela não ser vegetariana. Depois disso, quando a amamentação for diminuindo, a criança precisa adotar o suplemento para o cotidiano: e isso mesmo nos casos de ovolactovegetarianas, ou seja, aquelas que não comem carne mas consomem ovos, leite e seus derivados. “É possível que a criança obtenha a B12 apenas dos derivados, mas as consequências da falta dessa vitamina são muito graves nessa fase da vida, enquanto o sistema nervoso ainda está em desenvolvimento”, ressalta o nutricionista.

Prevenir que uma criança não sofra pela deficiência da B12, portanto, é fortemente recomendado pelos especialistas. Além disso, é necessário lembrar que, embora essa deficiência seja mais comum em vegetarianos, ela pode acabar existindo também para indivíduos que comem carne.

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Proteína não precisa vir da carne

Para os desavisados, uma criança que tenha optado pelo vegetarianismo restrito ou até pelo ovolactovegetarianismo pode acabar sendo motivo de preocupação, afinal, muitas pessoas ainda acreditam que, se não houver carne no prato, nutrientes como a proteína ficarão em falta. Porém, de acordo com os especialistas entrevistados, há muitas fontes de proteína no reino vegetal entre leguminosas e oleaginosas: feijão, ervilha, lentilha, grão de bico, soja e tofu de um lado, castanha-do-pará e castanha-de-caju, nozes, amêndoas, pistache e avelã de outro. Sementes como as de girassol, gergelim e abóbora também são complementares.

Isso apenas do lado da proteína, mas tampouco é só a carne animal que é rica em ferro, cálcio e zinco: esses nutrientes, além de serem encontrados também em leguminosas e oleaginosas, encontram-se também nos vegetais de cor verde escuro e nas frutas. Cereais integrais também complementam a alimentação do lado do ferro e do zinco e óleos de chia e linhaça contêm ômega 3. Tudo para nenhum nutriente ficar em falta.

Ou seja, com tantas opções, a escolha por uma vida vegetariana está aprovada – seja ela pelos pais ou pela criança. E muitas crianças vem surpreendendo por aí com essa escolha, seja ela racional ou mais emocional. A artista visual Thany Sanches, de 31 anos, conta que seu filho Otto, hoje com sete anos, desde sempre se negou a comer qualquer tipo de carne. E isso até hoje: “ele fica aflito se alguém oferece carne para ele”, conta ela. De acordo com a mãe, nem mesmo ovo lhe cai bem: “Teve uma vez que ele comeu macarrão e viu um ovo desenhado na caixa; depois disso não comeu mais”. E não é por influência dos pais: de acordo com Thany, ela mesma come ovo quase todos os dias pela manhã.