FAST FOOD VEGGIE

FAST FOOD VEGGIE, PODE OU NÃO PODE?

Ale Luglio, nutricionista da Sociedade Vegetariana Brasileira, responde.


Helen Almeida | Feb 08, 2019

Pesquisas apontam um crescente aumento no número de vegetarianos e veganos ao redor do mundo. O estilo de vida que já foi restrito a uma pequena parcela da população, tem se popularizado e no decorrer de 2019, essa popularização tende a aumentar. Por exemplo, em uma pesquisa solicitada pela FORBES, a LatentViews Analytics, empresa que se utiliza de análise de dados e inteligência artificial para identificar tendências antes de seu surgimento, concluiu que alguns alimentos veganos como leite vegetal de aveia, semente de lírio de água e carne-seca vegana serão alimentos em alta na indústria alimentícia.

As grandes empresas do mercado já estão trabalhando para atender essa nova demanda, e as cadeias de fast food não ficaram para trás. Além do surgimento de restaurantes especializados em lanches rápidos vegetarianos e veganos, restaurantes e lanchonetes tradicionais já passam a oferecer alternativas.  No Brasil, duas das mais populares redes de fast food, Mc Donalds e Burger King já oferecem opções ovolactovegearianas para seus consumidores, mas os lanches veggie de ambas as marcas chegaram ao mercado levantando polêmica, entre elas, a dúvida quanto a saudabilidade.

A nutricionista do setor de saúde e nutrição da Sociedade Vegetariana Brasileira, Alessandra Luglio, fala sobre os prós e contras da adesão de vegetarianos e veganos ao fast food. De acordo com ela, apesar de não ser a melhor forma de se alimentar, existem pontos positivos nessa nova forma de consumir.

“O veganismo é baseado naquilo que tem de mais simples, no caso do Brasil, arroz, feijão, legumes, verduras, os alimentos que estão presentes no dia a dia, em qualquer self service, em qualquer refeitório de empresas, industrias, ou seja, não é difícil comer vegano e comer comida de verdade sem precisar partir para ir a fast foods e comidas mais refinadas

VegMag: Ao redor do mudo, tem crescido a oferta de opções ovolactovegetarianas e veganas em redes de fast food. Levando em conta que 2019 será, de acordo com The Economist, o ano do veganismo, é possível que essas ofertas aumentem ainda mais, inclusive no Brasil. Como você vê essa tendência?

Alessandra Luglio: O ano de 2019 realmente promete ser um ano em que o veganismo vai estar mainstream, em pauta tanto na mídia quanto abrindo mais horizontes nas escolhas das pessoas. Realmente, quando isso acontece com qualquer assunto, qualquer tendência, o que o mercado faz é reagir, né? Então nós vemos aí grandes players de alimentação do mercado, tanto em produtos prontos, industrializados, como as grandes redes de alimentos olhando para esse mercado e buscando alternativas para que possam atender esse crescente número de consumidores.

Realmente as grandes redes de fast food têm falado e têm lançado produtos para o veganismo, algumas ainda na fase ovolactovegetariana, em que se retirou a carne do cardápio, porém, a versão acaba ainda tendo queijos e ovos, mas uma outra parte já diretamente indo para o produto vegano. E, realmente, se a gente pensar em fast food, nós estamos falando em alimentos, normalmente, que não tem uma carga nutricional tão importante.

A maioria dos alimentos produzidos em cadeias de fast foods são ricos em gorduras, principalmente em gorduras saturadas, são refinados e são pobres naquilo que a gente chama daquilo que é mais nutritivo, que são os micronutrientes, vitaminas, minerais, também as fibras. Realmente o que a gente vê é uma mudança, o que se consumia com carne, com laticínios e com ovos, passa-se a consumir sem esses ingredientes, mas mantem-se o propósito, a ideia do alimento ainda refinado, mais processado, que nós sabemos que não é nada nutritivo. O que eu vejo dessa questão, é que com o aumento do veganismo ele vai, entre aspas, obrigar as pessoas a procurar mais informações sobre alimentação, isso é um ponto muito positivo.

Na minha experiência clínica como nutricionista, de muitos anos, eu percebo que todas as pessoas que foram impactadas pelo veganismo, seja por questões ambientais ou por questões animais, acabam olhando para sua alimentação de uma forma diferente e praticando melhores hábitos. Isso também pode forçar o mercado, inclusive as cadeias de fast food a fazer aprimoramento e melhoramento desses produtos. Então, de um modo geral, quem já come fast food, trocará por fast food vegano. O que nós ganhamos com isso? Primeiro, o impacto ambiental se reduz, a gente tem a questão do uso dos animais que são poupados optando pelo alimento vegano e para a saúde, independe de serem alimentos ultraprocessados, com mais alto teor de gordura, muitas vezes refinado, a gente tem um perfil de gordura mais favorável à saúde, retirando-se parcialmente a gordura saturada e o colesterol que só existe em alimentos de origem animal e passa-se a consumir mais alimentos de origem vegetal que são ricos em outros tipos de gorduras que são consideradas mais saudáveis como as gorduras insaturadas. Então, é positivo para todo mundo, embora não seja o melhor caminho para se alimentar.

VegMag: Você considera saudável que vegetarianos e veganos optem pelo consumo desses alimentos de forma frequente?  Como nutricionista, considera que o consumo exagerado de fast food veggie pode ser tão prejudicial quanto de opções com carne?

Alessandra Luglio:  A minha opinião é não. Não é saudável que se opte. Porém, é importante deixar claro que essa transição das pessoas da alimentação a base de origem animal para alimentação a base de origem vegetal, não é uma salvadora da pátria em todos os sentidos, ou seja, se a pessoa tem maus hábitos alimentares dentro da alimentação onívora, incluindo carnes, laticínios e ovos, é importante deixar claro que já existe carência de micronutrientes, já existe carência de fibras, já tem excesso de gorduras saturadas nessa alimentação que teoricamente as pessoas já consideram normal. A transição para o veganismo mesmo fazendo uso desses alimentos mais processados de fast food, ela não vai mudar muita coisa. O que vai alterar, é que realmente vai se consumir menos gorduras saturadas e colesterol que é aquilo que a gente sabe que impacta a saúde de forma mais negativa do que é que proveniente dos alimentos de origem animal.

VegMag: A busca por praticidade na alimentação do dia a dia costuma ser a razão alegada por quem é adepto dos fast foods. No caso dos vegetarianos e veganos, quais alternativas você indica para fugirem dessas opções que podem ser prejudiciais a sua saúde?

Alessandra Luglio: Realmente, a falta de tempo é um desafio de todas as pessoas. A forma mais consciente e efetiva de a gente evitar os fast foods é realmente trabalhar, talvez com comidas congeladas. A gente tem hoje linhas de produtos de alimentos congelados que você pode consumir. Hoje a maioria das pessoas se alimentam em fast foods; saem para almoçar na hora do almoço nos ambientes de trabalho, mas a grande parte dos escritórios hoje em dia tem copa, tem um recinto para que você possa levar sua comida, esquentar no microondas e se alimentar. Você acaba ou levando comida de casa que alguém preparou para você ou você mesmo preparou ou então, pode levar alimentos congelados, pratos congelados que vão custar o mesmo preço de um combo de alimentos no fast food, mas com um valor agregado nutricional muito maior e um menor teor de gordura, refinados e também de aditivos sintéticos como realçadores de sabor que a gente sabe que não são nada saudáveis.

Prato congelado da Beleaf

 

VegMag: Partindo dessa tendencia a popularização do veganismo, para além dos fast foods, quais cuidados você considera que se deva tomar para não cair em armadilhas e acabar consumindo alimentos que apesar de veganos não são necessariamente saudáveis?

Alessandra Luglio: A dica que eu deixo realmente é que as pessoas se informem mais sobre a alimentação. O veganismo é uma porta de entrada, é um convite para se alimentar melhor. E que o veganismo é baseado naquilo que tem de mais simples, no caso do Brasil, arroz, feijão, legumes, verduras, os alimentos que estão presentes no dia a dia, em qualquer self servisse, em qualquer refeitório de empresas, industrias, ou seja, não é difícil comer vegano e comer comida de verdade sem precisar partir para ir a fast foods e comidas mais refinadas.

Dentre os fast foods, existem aqueles que tem melhores opções. Sempre optar por comer salada, que acaba trazendo um aporte de nutrientes maior, melhor, no lugar da batata frita, por exemplo. Optar por alimentos não fritos, sempre escolher com base naquilo que vai trazer mais nutrientes, que vai ter sabor também. O paladar se adapta e nosso critério, uma vez que foi-se feita uma escolha por comer de forma consciente, porque ninguém se torna vegano porque acha gostoso, torna-se porque tem uma razão maior para isso. Então deve-se aproveitar a oportunidade para se alimentar melhor se informando sobre o assunto.